A falta de tempo que outrora servia de desculpa para não ler
todos os livros que lhe despertam interesse já não serve. Com os audiolivros
pode ler quando e onde quiser.
Já imaginou ouvir o livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel
García Márquez, ao volante do carro quando vai para o trabalho? Ou desvendar O
Segredo, de Rhonda Byrne, enquanto anda de bicicleta no ginásio? Ou até
descodificar o Código da Vinci, de Dan Brown, enquanto prepara o jantar? O
mercado dos audiolivros ganhou o seu espaço e hoje é possível ouvir aquele
livro ao mesmo tempo que executa outras tarefas. O mais recente estudo da Audio
Publishers Association (APA), divulgado em Agosto do ano passado, revela que a
indústria dos livros falados está avaliado em 923 milhões de dólares (cerca de
590 milhões de euros), o que corresponde a um crescimento de 6% desde 2005.
Portugal entra no estudo através da editora Solutions by Heart (SBH), a única
portuguesa que figura na lista de membros da APA.
Mas o que é um audiolivro? É um livro em formato áudio, lido
ou interpretado por um actor ou locutor, com efeitos sonoros ou não. 'É mais
uma forma de ler', garante Sandra Silva, directora da 101 Noites, uma editora
de audiolivros. A responsável aventurou-se nesta área o ano passado, quando
lançou a primeira colecção, Livros para Ouvir. Mas antes estudou a lição. 'Fiz
um estudo de mercado no estrangeiro e reparei que os audiolivros eram um
sucesso. Hoje, nos EUA, representam cerca de 10% do mercado editorial. Na
Alemanha e na Suécia representam 8%, e em Espanha e na Itália também já têm
bastantes adeptos', avança a responsável. No ano passado a 101 Noites lançou
obras de seis autores maiores da literatura portuguesa, entre elas Um Jantar
Muito Original, de Fernando Pessoa (lido por São José Lapa); Sete Mulheres, de
Camilo Castelo Branco (na voz de Nuno Lopes); ou Civilização, de Eça de Queirós
(com interpretação de José Wallenstein). E o sucesso 'é significativo'. Cada
livro teve uma tiragem de quatro mil exemplares e Sandra Silva revela que cerca
de metade foram vendidos.
Apesar da resistência de alguns, que temem que este formato
possa contribuir para um maior fosso nos índices de leitura, Sandra Silva não
desiste - vai lançar em breve uma colecção para os mais jovens: três contos de
Oscar Wilde, com voz de Rosa Lobato Faria. A directora da 101 Noites não
acredita que este suporte contribua para a iliteracia, antes pelo contrário, é
uma 'forma de a combater'. Por isso faz questão de que os audiolivros da sua
editora (com duração de 70 minutos e as obras na íntegra, já que se tratam de
contos) sejam distribuídos sempre com o livro impresso. Aponta como grande
vantagem deste formato a possibilidade de as obras poderem ser descarregadas em
ficheiros digitais para os iPod, MP3 ou mesmo o iPhone, o que pode levar a ler
mais, sobretudo os jovens, os 'grandes adeptos das tecnologias'.
Mas nem todos estão optimistas em relação aos audiolivros.
Albertina Dias, da editora Solutions by Heart, confessa que 'a adesão dos
portugueses não é positiva, devido à pirataria', ainda para mais 'os
distribuidores não expõem os audiolivros como os impressos'. Mas mantém a
esperança e vai apostar no mercado internacional com o 'lançamento de
audiolivros em inglês e sobre economia e tecnologia'. Ao contrário da 101
Noites, os livros falados da SBH 'são um resumo da obra original', o que 'pode
ser visto como um convite para comprar o impresso' e, além disso, 'valoriza o
que tem de valorizar: a leitura', acrescenta a responsável. Albertina Dias,
admite que não regista muitas vendas, mas ainda assim consegue manter uma
posição optimista. 'Por exemplo, se ouvirmos um amigo a falar sobre um livro
que leu, podemos ficar curiosos. Com os audiolivros acontece o mesmo - ajuda o
leitor a compreender o conteúdo e pode ficar interessado em ler o impresso'.
Num aspecto há consenso - os livros falados só apresentam
vantagens, segundo as duas responsáveis. Sandra Silva refere o tempo, uma vez
que conseguimos 'ler um livro e fazer outra actividade'. E, depois, tem um lado
ecológico. 'O audiolivro em formato MP3 é amigo do ambiente. Se usarmos os
ficheiros digitais para ler não se gasta papel e outros materiais. Podemos ter
uma biblioteca portátil no iPod e no iPhone, por exemplo', refere a directora
da 101 Noites. Já Albertina Dias afirma que o audiolivro pode servir para os
invisuais e para os estudantes, o que a leva a querer apostar em livros sobre
diversas áreas - economia, direito, história, medicina, ciências sociais.
O mercado de audiolivros em Portugal ainda vai fazer correr
muita tinta, de acordo com a editora 101 Noites. No estrangeiro já foram
ultrapassadas várias etapas. 'A operadora norueguesa Telenor já tem mais de 200
títulos disponíveis para telemóvel. Basta enviar um SMS e recebe o livro. Na
Alemanha, na Noruega e na Suécia é possível alugar automóveis com uma
biblioteca de audiolivros. E em França existem comboios com audiolivros
disponíveis', aponta Sandra Silva. Por isso, 'deixa de haver pretextos -
qualquer viagem pode servir para 'ler' um livro', diz a responsável.
ONDE COMPRAR
Em Portugal o mercado dos audiolivros ainda é pequeno. E são
poucos os pontos de venda. Além das editoras 101 Noites e Solutions by Heart há
ainda a Boca - Palavras que Alimentam e a MHIJ Editores Associados. E é só. No
entanto, pode encomendar mais livros em vários sites internacionais - e que são
autênticas bibliotecas.